A necessidade de uma Teoria de Design - As dificuldades de aplicações do “caos focado”

O “caos focado” é a metodologia usada pela IDEO para a geração de idéias e produtos inovadores. É muito difícil apontar os fatores principais para a eficiência do método, já que cada detalhe é importante e decisivo para que o trabalho coletivo alcance seu melhor resultado. Porém,eu gostaria de destacar o que acredito ser o principal diferencial da IDEO: o seu processo de geração de idéias.
Posso caracterizar de uma forma grosseira, o processo criativo da IDEO (parte1, parte2, parte3) como sendo um brainstorm realizado com um grupo heterogêneo de pessoas. É nesse “caos” criado pelo brainstorm que se consegue o ambiente ideal para que as inovações interseccionais(*) possam nascer. Porém, como eles mesmos explicam, o “caos” deve ser controlado, pois o processo caso não seja controlado, pode continuar indefinidamente, tornando-se assim um mero gerador de conceitos e idéias e não um gerador de produtos inovadores. A eficiência do processo não pode ser discutida, já que os resultados obtidos são plenamente satisfatórios. Além disso, é fato que a IDEO é respeitada e conhecida no meio empresarial justamente pela eficiência do seu método. Podemos validar assim, o “caos focado” como uma metodologia de inovação bem sucedida. Além disso, os estudos em inovações interseccionais são claros e mostram a eficiência criativa ao se colocar diferentes áreas do conhecimento em um processo de inovação.
Mas se o processo é tão simples e conhecido (braistorm é uma técnica já bem desenvolvida e aplicada na indústria) por que a IDEO é uma das poucas empresas que conseguem alcançar tais resultados?
Isso pode ser explicado pelo fato de que muitas das ferramentas de controle do processo são empíricas ou resultados criativos adaptados de outros domínios. Tais como exercícios de criatividade vindos da pedagogia ou métodos de escolha coletiva vindo da sociologia. Exemplos de questionamentos que surgem são: para diferentes tipos de projeto terei diferentes tempos de brainstorm? Quantas iterações do processo devem ser realizadas? De que forma eu escolho uma solução?
É justamente nesse ponto que a IDEO tem vantagem em relação as outras empresas que desejam implementar o mesmo processo: a experiência. Depois da realização de muitos projetos diferentes foi possível criar uma “caixa de ferramentas” onde se pode encontrar as diretrizes para diversas entidades do “caos focado”.
Processos empíricos são eficientes e normalmente nos levam a resultados positivos. A partir disso, experiência e testes sucessivos levam a uma otimização dos parâmetros do processo tornando-o mais eficiente por completo. Essa abordagem é muito comum na escola americana que possui por base a praticidade. Porém, uma outra forma de observar o problema, característica da escola européia, é a criação de modelos (muitas vezes matemáticos) e a otimização a partir da análise desse modelo. Induz-se assim, uma outra maneira de se abordar o processo: uma visão a partir da construção de uma teoria englobando o conceito de design por completo, não apenas o design do produto, mas também o design artístico, o design em arquitetura, dentre outros. A partir dessa teoria é possível explicar os fenômenos pontuais de qualquer design, como o processo da IDEO ou um processo criativo artístico qualquer e melhorá-los com proposições que podem ser justificadas pela própria teoria.
O grande problema é que atualmente as teorias de design não explicam detalhadamente a particularidade da inovação e da criatividade. Na teoria atual (Pahl G. & Beitz W. (1977). Engineering Design) não existem ferramentas para gerir a criatividade e muito menos formas de explicá-la. Por isso a forma de integrar o fator criatividade no processo foi feito de modo modular. A idéia foi de simplesmente utilizar métodos de criatividade, vindos de outras áreas do conhecimento (artes, arquitetura e etc.) , e “colar” sobre a velha metodologia de design de produtos.
Para ilustrar isso podemos falar das diferenças entre o departamento criativo da empresa (geralmente o departamento de Marketing), onde se criam os conceitos, onde se tem os contato com os clientes e onde se definem as necessidades; e o departamento de Engenharia, onde se transformam os conceitos em produtos. (**)
Assim, o designer e o engenheiro, na teoria de design atual, ficam separados, causando uma tensão entre o conceito e o factível, quando, na verdade, o trabalho de definição do conceito e sua realização é um processo cíclico (como mostrado no post "A difícil arte de se definir um desafio") onde ambos os atores devem trabalhar em conjunto para alcançar conceitos novos e realizáveis. Sem essa idéia cíclica o processo de inovação se empobrece e as inovações acabam sendo no máximo melhorias já esperadas e não grandes idéias que quebram paradigmas.
É possível se analisar todas as dificuldades na aplicação do método da IDEO e explicitar os estudos que estão sendo desenvolvidos para modelar e explicar cada fenômeno, porém é preciso previamente definir outras ferramentas de análises. Deixarei para posts futuros uma análise mais detalhada de cada aspecto da IDEO, mostrando que o grande problema de se administrar uma brainstorm heterogênea está relacionado aos fatores desenvolvidos na teoria de "ação coletiva" (deixo um link de um artigo em francês caso alguém se interesse) .
O próximo post da sequência mostrará com mais detalhes as teorias de design mais conhecidas hoje(Pahl G. & Beitz W. (1977) - Alemã e Nam P. Suh (Teoria Axiomatica de Design) - Americana) e colocará pontos importantes que a modelagem de uma nova teoria de design deve abordar.
(*)Segundo Frans Johansson em seu livro The Medici Effect,há dois tipos de inovações: a inovação direcional e a inovação interseccional. A inovação interseccional nasce da intersecção entre as infinitas áreas do conhecimento. É dentro desse campo que vive a tão sonhada criatividade. Com esses conceitos,o Blog CAOS FOCADO,a partir dos ângulos da engenharia,mercado,design e empreendedorismo possui o objetivo de estimular desenvolvedores a criar inovações que são responsáveis por quebrar paradigmas. (Miguel Chaves)
(**) Os conceitos gerais sobre a teoria organizacional a partir da teoria de design é explicado em muitos papers do laboratório CGS da Ecole de Mines de Paris . O estudo da divisão organizacional da empresa a partir da teoria atual de design também é desenvolvida e é nesse estudo que me baseio aqui. O design na teoria atual começa à partir do momento em que todos os requisitos foram bem definidos. E nesse momento acaba o trabalho do departamento criativo e começa o trabalho do design em engenharia.
Marcadores: Design Teory, Teoria de Design

3 Comentários:
Fala Di, blz?! Você abordou um ponto interessante: a questão de divisão de setores entre designers e engenheiros. Aqui no Brasil isso é bem constante. O designer faz uma coisa linda e altamente funcional e o engenheiro necessita cortar muitos conceitos empregados, pois muita coisa está fora da realidade. Apesar de ser uma empresa americana de desenvolvimento de produto isso também está ocorrendo um pouco na empresa que trabalho atualmente. Mas aos poucos vou mudando isso, hehe...
Acho que além da realidade do factível, o designer (o criativo, digamos), ainda enfrenta a realidade do comercializável! Que me parece uma barreira ainda maior!
Bom post! Aguardo os próximos!!
Então, todos esses pontos do factível, comercializável são pontos de extrema importância e que devem ser levadas em conta no design. Por isso o processo cíclico de "estudo" e depois reformulação de conceitos da IDEO é tão bom. É exatamente nesse estudo que se vê o factível (prototipagem) e o comercializável(estudo de mercado). Após isso, a reformulação de conceitos com informações novas, adquiridas na fase de aprendizado, pode fazer mudar a direção do design inicial. A partir dessas características de design com aprendizado e reformulação é que se pode criar uma base para uma teoria de design. É exatamente isso que abordarei no próximo post.
Obrigado pelos comentários e pelos elogios!
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