segunda-feira, 6 de abril de 2009

Empreendedorismo social: tudo perfeito!?

Segundo Lawrence Gitman no livro Princípios de Administração Financeira, o objetivo de uma empresa, diferentemente do que o senso comum acredita, não é apenas maximizar o lucro, mas sim, a necessidade de aumentar a riqueza da instituição. A riqueza seria a maximização dos objetivos da organização no intuito de agradar seus sócios. Cada vez mais empresas, têm-se focado não apenas na obtenção do lucro (quesito esse que é vital para a sobrevivência de uma companhia), mas tem colocado no mesmo patamar, o impacto social gerado pela organização. Um exemplo desse fato é Muhammad Yunus que criou o Grameen Bank em Bangladesh e devido a isso ganhou o prêmio Nobel da Paz de 2006. Suas palavras resumem esse novo conceito chamado empreendedorismo social: “Isso não é caridade. Isso é negócio: negócio com um objetivo social que ajuda as pessoas a saírem da pobreza”.

Entretanto para entender essa tendência, primeiramente é necessário entender determinados conceitos. Doar um alimento a uma creche ou dinheiro no farol para uma criança são atitudes caracterizadas como ações assistencialistas. Embora uma ação assistencialista possa ser utilizada como artefato de implantação de ações não assistencialistas, o ditado popular 'não dar o peixe, mas sim ensinar a pescar' mostra a opinião de uma significativa porcentagem das pessoas que atuam nesse setor. Miguel Pantoja, presidente os Engenheiros Sem Fronteiras da Espanha, diferencia esses dois conceitos através das palavras efeito e impacto. Segundo ele, uma ação deve criar impacto social. O desenvolvimento de um projeto em uma comunidade deve buscar a mudança positiva de nível social não apenas no período de implantação, mas a própria comunidade deve ser capaz de manter-se naquele nível social após o projeto ter sido implantado. Caso a comunidade volte ao nível social anterior, o projeto é caracterizado como um efeito social, ou seja, um assistencialismo.

Projetos não assistencialistas, por sua vez, podem ser caracterizados de duas formas diferentes: ação social ou negócio social. Segundo Kelly Mitchel, presidente da organização Artemisia, a ação social é a "comercialização de produtos ou serviços que visam estimular a criação de postos de trabalho e gerar renda para a população beneficiada e/ou para a própria organização. O marco jurídico é social". Um exemplo é o projeto Ceramic Water Filters implantado no Cambodia pelo Engenheiros Sem Fronteiras Austrália. Já o negócio social é a “comercialização de produtos ou serviços que diretamente melhoram a qualidade de vida de pessoas de baixa renda. O marco jurídico é econômico”, como por exemplo o projeto do aerogerador de energia elétrica de baixo custo WindBelt desenvolvido pela empresa Humdinger Wind.

Através desses meios, o que se deve ter noção é que para gerar impacto social não é necessário desfazer-se de bens, mudar-se para um nível social menos qualitativo ou ainda absorver crenças em torno do lucro ser um pecado. A idéia é atuar através de uma parceria com a comunidade para que ambos recebam crescimento em seus valores. Dessa forma, a comunidade assistida possa chegar a um nível social satisfatório afim de que ela tenha oportunidade de julgar o que é necessário e o que não é para sua existência. Nesse cenário, a satisfação pessoal é a moeda de troca de muitos atuadores no setor social. Infelizmente ou felizmente, o ser humano é movido a recompensas de forma tangível ou intangível. É esse fato que gera a ambição enquanto positiva de querer ascender durante sua vida garantindo a perpetuação da humanidade. Dessa forma, não há diferença quando um cidadão doa uma cesta básica para uma família que vive em uma comunidade carente ou uma empresa que constrói uma escola na periferia com a intenção de melhorar a visão de sua marca. Ambos estão buscando algo em troca. Em uma análise mais profunda a empresa pode ser até mais atuante que a pessoa doadora, pois ela está gerando um impacto social enquanto a outra gera apenas gera um efeito social.

Segundo Clarissa Lins, diretora da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), "uma empresa não venderá um único produto a mais por ser sustentável, mas pode perder imensamente se ficar demonstrado publicamente que a empresa não é sustentável". É nessa afirmação que a tendência citada, em pouco tempo tornar-se-á condição. O empreendedorismo social determinado atualmente será regra básica para qualquer empresa que queira sobreviver nos mercados futuros. Dessa forma, o empreendedorismo social tende a torna-se uma das vigas estruturais do crescimento de qualquer empresa. Clarisse Lins ainda demonstrou durante o evento Diálogos Itaú de Sustentabilidade que, embora algumas empresas tratem a externalidade como um detalhe do negócio, todas as companhias, independentemente de seu ramo de atuação, ao desenvolverem suas atividades, geram impactos sobre o bem-estar da comunidade em que está inserida. Esses podem ser positivos quando, por exemplo, levam ao desenvolvimento da região. Ou negativos, quando afetam o meio. “Quando as empresas passaram a constatar o impacto que geram no entorno social e ambiental, começaram a trazer essas variáveis para o centro da tomada de decisões, fazendo surgir um novo modelo de negócios que tem como base fundamentos como ética transparência e prestação de contas”, comentou.

Embora, o conceito de sustentabilidade esteja em alta e sendo usado amplamente por renomes na sociedade, muitas vezes o termo é empregado de forma errônea. Segundo a expressão Triple Bottom Line de John Elkington (fundador da ONG Sustainability e um dos escritores do livro The Power of Unreasonable People: How Social Entrepreneurs Create Markets That Change the World), a sustentabilidade empresarial está sustentada sobre os pilares econômicos, sociais e ambientais da humanidade. Portanto, uma indústria química, por exemplo, que resolve abrir uma filial em um país emergente como o Brasil em uma região de baixo nível social pode ser considerada em uma análise superficial, uma indústria sustentável por gerar milhares de empregos. Entretanto, é necessário averiguar o impacto que ela gera nas questões econômicas e sociais da região para garantir o tripé no qual a sustentabilidade está apoiada. Se essa indústria causa um impacto negativo ao ambiente, como por exemplo, o dejeto de efluentes não tratados diretamente em rios da região, a empresa deixa de ser sustentável passando apenas a possuir um caráter social. Foi baseado nesse contexto, que o Engenheiros Sem Fronteiras Brasil incitou uma discussão no segundo semestre do ano passado durante a realização de seus projetos: até que ponto é válido a positividade de umas das pernas das sustentabilidade de uma empresa em detrimento de outra perna. Exemplificando, essa mesma empresa teria caráter social se fosse implantada na China, onde os direitos trabalhistas em relação com o padrão mundial declarado pela ONU são paupérrimos, entretanto, sem a mesma indústria ali situada os cidadãos chineses não teriam de onde tirar o mínimo para seus sustentos? E se a mesma indústria implanta-se na Somália gerando milhares de empregos, desenvolvendo a região economicamente, entretanto com as mesmas características de uma indústria do período da revolução industrial, sem técnicas reguladoras degradando o meio ambiente, seria essa indústria positiva para a região?

É em meio ao cenário descrito anteriormente que um embate pode ser levantado: os mecanismos de desenvolvimento limpo (MDL) podem ser considerados mecanismos totalmente sustentáveis? Durante um evento de sustentabilidade, um participante da platéia perguntou ao embaixador Rubens Barbosa (presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp e membro de diversos conselhos como o da Bolsa de Mercadorias & Futuros - BM&F -, Conselho Internacional do Banco Itaú e da empresa Brazil Ethanol) se existe correlação entre mercado de crédito de carbono e justiça social. “À medida que as empresas começarem a se beneficiar desse mercado, vão aumentar sua produtividade e conseqüentemente, o número de empregos. Mas não vejo, de imediato, um efeito direto entre mercado de crédito de carbono e justiça social. O que vai melhorar se conseguirmos controlar as emissões ou, eventualmente, reduzi-las, são os efeitos indiretos da mudança climática que afetarão a população, sobretudo os mais pobres, como o aumento de preços dos alimentos e a questão do deslocamento de pessoas”, respondeu Barbosa. Dessa forma, é interessante para a China se envolver com mecanismos de desenvolvimento limpo e , portanto, desacelerar seu crescimento, sendo que ela está passando pela sua ‘revolução industrial’ nesse momento e os países que querem impor tais regras já se desenvolveram significantemente nesse mesmo modelo em épocas passadas? É conveniente aplicar um ISOXXXX modelado para um ambiente alemão em uma empresa nacional do país de Gana (país este que pode não possuir tecnologia de ponta para produzir produtos ambientalmente corretos nem tão pouco recursos para adquirir um certificado de alto custo) e difundir o conceito de que as populações só comprem produtos que estejam adequados a tal ISO? Não seria isso uma forma de proteção da economia dos países do norte para que os mercados consumidores desenvolvidos continuem adquirindo produtos desses países e não sofram concorrência do desenvolvimento de países emergentes?

5 Comentários:

Blogger Fábio Lofrano disse...

Excelente post, Miguel!

7 de abril de 2009 às 09:52  
Blogger **Thaís** disse...

Mt bom seu post, Miguel... Só tenho um comentário: acho que é mais que prudente que a China envolvá-se com mecanismos de desenvolvimento limpo. Isso não significa que ela irá desacelerar seu crescimento. Só irá buscar novos mecanismos que podem até tornar seu crescimento mais significativo. Não concordo que se os outros países poluíram para crescer ela tenha que fazer igual. Estamos num contexto muito diferente do passado. E se eles continuarem a poluir, também sofreram com as consequências. Mesmo porque não adinata ter um país desenvolvido e uma população morrendo de sede por falta de água potável ou doente com câncer no pulmão.

Bjinhus

14 de abril de 2009 às 09:38  
Blogger Miguel Chaves disse...

Não diria que ela tem que fazer igual, entretanto há de convir que um desenvolvimento sustentável é muito mais custoso monetariamente que um desenvolvimento não sustentável, como por exemplo reciclagem de produtos. Não é atoa que o mundo optou pelo primeiro em vez do segundo. E infelizmente ou felizmente, o crescimento de uma população ainda está atrelada ao crescimento econômico. Dessa forma, eu acredito que do ponto de vista econômico a China teria que desalecerar seu crescimento. Mas outra questão você fez-me pensar nesse momento com sua última afirmação: não seria pré-requisito de um ambiente de desenvolvimento sustentável, um ambiente anterior de desenvolvimento não sustentável? Ou ainda, para um país que não sofreu sua 'revolução industrial' como acontece com alguns países na África, vendo o mundo como é hoje, é melhor desenvolver-se desenfreadamente e depois tornar-se sustentável ou começar a sustentabilidade desde já, mesmo não tendo nenhuma base tecnológica para tal opção?
Digo isso, pois em diversos projetos de que atuei, esse contexto foi posto em cheque. Por exemplo, no IDDS do ano passado, foi construído uma encubadora para crianças recém-nascidas de baixo custo. Entretanto, ela possuía características de que seria usada em comunidades onde a luz elétrica ainda não teria chegado, influenciando ainda mais o uso de baterias que depois seriam descartadas em rios da região. Então, nesse cenário, influenciar ou não o consumo dessas incubadoras?

14 de abril de 2009 às 10:18  
Blogger RIO-SALVADOR disse...

Olá Miguel!

Interessante o ponto de discussão sobre o Mercado de Carbono e a responsabilidade social!

A minha visão deste mecanismo é de que sempre esteve diretamente ligado às questões sócio-ambientais! Primeiramente pq, o mecanismo de desenvolvimento limpo( MDL) beneficia apenas os países em desenvolvidos como Brasil, Índia e China( principalmente), ou seja, os países industrializados que assinaram as metas estipuladas pelo protocolo de kyoto(Anexo 1) podem de forma organizada financiar projetos com potencial em reduzir as emissões de gases do efeito estufa nos países Não-Anexo 1. ( Não necessariamente esta mudança levará a um não crescimento e sim, geralmente, o contrário! Tanto desenvolvimento quanto crescimento econômico ao país)

Em suma, estes países deixarão de cometer futuros erros já cometidos pelos países Anexo 1. Diminuindo os riscos de saúde, de saneamento (vetores principalmente), de fome, etc etc que vem sendo intensificado pelas mudanças do clima, por ex.

Além disso, o MDL possui diversas discussões e relatórios que abordam responsabilidade social como na africa, onde eles auxiliam e dão apoio a população para estes tipos de mudanças no clima, através de incetivos financeiros e pesquisas para a melhoria sócio-ambiental.

Seria bacana c entrar neste site, ele tenta envolver mais as questões de mudança climática com os problemas sócio ambiental ( http://uneprisoe.org/climate.htm)!

Adorei o blog, discussões pertinentes e interessantes pra se pensar com calma!

Ficaria horas conversando sobre o assunto! Gostei bastante!!!

Boa sorte para novos tópicos!
Beijão,
may

14 de abril de 2009 às 14:27  
Blogger Unknown disse...

Muito bom seu post! Tem tudo a ver com o que estávamos conversando outro dia. Gostei do comentário sobre MDL também...é uma discussão interessante! E você escreve muito bem!

14 de abril de 2009 às 16:38  

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