
O último post teve como intuito mostrar, utilizando-se da metodologia “caos focado” criada na IDEO, a importância da existência de uma teoria de design. Este post segue o mesmo objetivo, porém desta vez expandiremos, saindo da metodologia do “caos focado” e chegando outras metodologias e teorias (antigas e atuais) de design e criatividade.
Existem no mundo, hoje, diversas metodologias de criatividade e desenvolvimento de produtos inovadores (o “caos focado” é uma delas). Cada metodologia tem sua singularidade e abordagens distintas, tanto no quesito criatividade como no quesito realização, deixando assim um grande leque de metodologias. Essa diversidade de metodologias deixa muitas dúvidas no memento da realização de um projeto inovador, tais como: Qual escolher? Existe uma metodologia mais eficiente? Como analisar e como melhorar as metodologias atuais? Porque o “caos focado” aparentemente tem melhores resultados que outras metodologias? O “caos focado” consegue ser melhorado?
Neste artigo do Terra Fórum o autor analisa diversas metodologias mostrando pontos fortes e fracos de cada uma. Porém, o que se vê é que sem uma teoria bem formalizada de design a análise se torna qualitativa, empírica e subjetiva. Portanto até o momento (onde ainda não foi apresentada a teoria de design desenlvovida por Hatchuel e Weil) não sabemos como, nesse mar de metodologias, decidir qual usar e qual se adapta melhor à necessidade.
Para se responder essas questões de forma mais objetiva, é necessário a criação (ou design) de uma teoria de design (meta-design) que consiga explicar, medir e entender como funciona o processo de desenvolvimento de um objeto (ou produto - no caso da engenharia) e criatividade. Só assim, uma análise mais criteriosa pode ser feita nas metodologias atuais, além tornar possível melhorias em seus pontos fracos com o intuito de melhorar eficiência e eficácia do processo.
Também, no post anterior, foi exposta a tensão entre os criadores (hoje em dia ainda denominados designers) e engenheiros no processo de criação de um produto inovador. Essa tensão criada pode ser é devido ao fato das teorias atuais estudarem e ensinarem design e criatividade separadamente. “As teorias de criatividade são baseadas principalmente em teorias cognitivas e de psicologia que geralmente colocam a criatividade dependente do individuo e de fatores culturais e organizacionais” [Hatchuel e Le Masson]. Já as teorias de Design são baseadas principalmente nos modelos sistemáticos alemães (Pahl G. & Beitz W. (1977). Engineering Design) e americanos. Esses últimos têm forte relação com a teoria de solução de problemas (Herbert Simon) e se utilizam de um sistema de divisão por etapas utilizando-se de processos de otimização e cada uma delas.
Antes de falar sobre as teorias de criatividade é importante dizer que “a grande maioria das teorias de criatividade são baseadas principalmente na ação cognitiva de um individuo” [Hatchuel e Le Masson]. Diversos estudos mostram que atividades de criação e design coletivos conseguem melhores resultados que individuas (o conceito de inovação interseccional esta presente nesse contexto). Assim, o estudo da criatividade e do design coletivo é também um fator a ser estudado, porém iremos abordá-lo em outro artigo. É necessário entender como funciona a criatividade e o design no individuo antes de estendê-la para o coletivo.
“A distinção entre pensamento convergente e divergente é a raiz de todas as abordagens psicológica da criatividade. O pensamento divergente é tradicionalmente visto como a ferramenta que permite a novidade enquanto que o valor é conseguido pelo pensamento convergente” [Hatchuel e Le Masson]. Dessa forma, muitos autores sugerem uma combinação, onde o pensamento divergente viria como primeira etapa criadora de idéias (novidade) e o pensamento convergente seria uma segunda etapa realizadora (geração de valor).
O pensamento divergente é a base das metodologias de criatividade enquanto que o pensamento convergente esta na raiz do design em engenharia. Existem diversos outros estudos psicológicos e cognitivos que se baseiam no comportamento e no ambiente para a geração de idéias, mas estes serão abordados também em outro artigo.< href="http://www.terraforum.com.br/biblioteca/Documents/Idea%C3%A7%C3%A3o%20-%20T%C3%A9cnicas%20de%20produ%C3%A7%C3%A3o%20de%20id%C3%A9ias.pdf">artigo do Terra Forum o autor trás uma boa referência das técnicas de criatividade mais usadas hoje em dia.
Para ilustrar o pensamento convergente iremos utilizar como base o modelo de design sistemático Alemão. Todas as outras antigas teorias (excluindo somente a teoria de design através de mapeamento, que será analisada em outro post) têm aproximadamente o mesmo conceito e idéias presentes na teoria Alemã (a mais presente nas indústrias hoje em dia). Apesar do modelo ser realizado de maneira coletiva, é possível definir a mesma lógica para um só designer e assim definir um modelo individual (como foi proposto acima).
“O modelo de design sistemático Alemão (Pahl G. & Beitz W. (1977). Engineering Design)é classificado como um design orientado ao processo” [Hatchuel e Le Masson]. O design orientado ao processo define etapas que devem ser seguidas para concluir um objetivo de design. O modelo de design sistemático divide o processo de design em 3 etapas: funcional, conceitual e realizacional. Na etapa funcional é onde se cria as funcionalidades do produto do design. É nessa etapa onde o departamento de marketing trabalha para a criação de requisitos. A etapa conceitual é onde os engenheiros transformam os requisitos em algo real, onde se realiza protótipos e testes. A última etapa é caracterizada pela produção em massa, onde se pensa como produzir aquele protótipo em grande escala.
Essa divisão em etapas e a abordagem utilizada neste tipo de modelo orientado a processo são muito próximas (como dito antes) à famosa teoria de “Resolução de Problemas” definida por Herbert Simon. Nas palavras de Simon “teoria de design não é mais nada do que a teoria de resolução de problemas”. No seu ponto de vista, “descobrir o espaço do problema”, “ usar processos de pesquisa para gerar alternativas”, “adotar um critério que satisfaça” eram componentes comuns tanto para a teoria de design como para a teoria de resolução de problemas.
Porém, o que nos impede de dizer que o design sistemático e a teoria de resolução de problemas são teorias universais de design é que em ambas as abordagens, a identidade do objeto é conhecida e fixa, enquanto que muitos designs criativos e inovações quebram paradigmas e mudam a identidade do objeto. Por exemplo, o celular há alguns anos atrás era um aparelho para se fazer chamadas com as mesmas funções de um telefone fixo. Hoje o conceito de celular não é mais o mesmo, podemos dizer que hoje o celular é um computador móvel e que a função de chamadas é só mais uma entre suas inúmeras utilidades. Hoje vivemos em uma sociedade onde a identidade dos objetos não é mais fixa e, portanto um modelo de design sistemático não cabe mais como abordagem. É preciso expandir o conceito e englobar essa falta de identidade dos objetos.
Tentando seguir nesse caminho muitos métodos foram criados justamente para unir o pensamento convergente (teoria sistemática e teoria de resolução de problemas) e o pensamento divergente (teorias cognitivas e psicológicas). Isso, como dito um pouco antes, era realizado fazendo-se uma fase de pensamento divergente e em seguida uma fase de pensamento convergente.
Esse tipo de resolução já traz melhores resultados, porém ainda tem fraquezas. Uma delas é justamente a criação da famosa tensão entre marketing e engenharia (comentada no post anterior), onde o marketing e a engenharia estão em constante guerra sobre o que é conceito e o que é realizável. Uma abordagem um pouco mais interessante é justamente o que a IDEO propõe: uma abordagem recursiva com intenso aprendizado.
É nesse ponto que o processo “caos focado” difere das outras metodologias de design. Em cada etapa existe uma pesquisa e aprendizado. A primeira etapa consiste em “aprender com os especialistas cotidianos”. Depois o aprendizado é feito empiricamente, partir de protótipos, vendo o que pode ser realizado ou não. Por fim, eles aprendem pela avaliação dos clientes que vão dizer os pontos fortes e fracos do design proposto. A aprendizagem somada com o efeito recursivo que muda a direção do design é o grande diferencial da IDEO e de seu modelo.
Assim, uma teoria de design além de englobar, explicar a criatividade e a falta de identidade fixa dos objetos, também deve entender o papel central do aprendizado e da sua reutilização durante o processo de desenvolvimento criativo.
É por isso que muitas pesquisas em “gestão do conhecimento” (Terra Forum) acabam também falando em criatividade e inovação. O conhecimento não é um fator que inibe a criatividade, como muitas vezes se pensa, pelo contrário, ele que permite expansões maiores. O aprendizado é um dos centros da teoria de design.
No próximo post iremos mostrar superficialmente a teoria C-K (Hatchuel e Weil) e como ela engloba todos os pontos necessários à uma teoria de design descritas neste post. Mostraremos também a definição de criatividade e de inovação de acordo com a teoria e falarei um pouco dos estudos que estão sendo realizados pela Design Society com base na teoria C-K.















